Home Office: Sonho ou Pesadelo?

A pandemia do novo coronavírus, que chegou ao Brasil no início de 2020, mudou, de uma hora para outra, a vida das pessoas. A rotina no trabalho, também foi alterada, e, a partir de março, nós vimos uma migração compulsória do trabalho convencional, na empresa, para o trabalho remoto, chamado home office. No entanto, problemas como adequabilidade do ambiente em casa para a execução do trabalho, disponibilidade de equipamentos, recursos de segurança e privacidade na troca de informações, autodisciplina para trabalhar, separação do trabalho e da vida pessoal, entre outras questões, ganharam atenção.

O home office (também chamado de “trabalho remoto” ou “teletrabalho”) é o nome que damos, no Brasil, ao trabalho feito remotamente, de casa, ao invés de ser feito dentro da Organização. O curioso é que, na língua inglesa (Estados Unidos e Inglaterra), esse tipo de trabalho é referenciado como “work from home”, e abreviado como WFH. Portanto, para você dizer: “Estou trabalhando em home office” em inglês, deverá dizer “I am working from home”.

A Pesquisa do GestaoIndustrial.com

Ao ver, por conta da pandemia, o home office crescer de forma tão grande, quanto súbita, no mundo todo, busquei conhecer a opinião daqueles que se tiveram essa experiência. Como encontrei pouco material, resolvi colocar uma pesquisa de opinião no GestaoIndustrial.com. Essa pesquisa capturou respostas durante um mês, no período de 07/10/2020 a 11/11/2020, através da tecnologia do Google Forms, e, para responder, foi requerido estar logado na conta do Google, para evitar respostas duplicadas. Um total de 417 profissionais responderam à pesquisa de opinião, na qual foram feitas apenas duas perguntas: 1) Você já trabalhou em home office?; e 2) Onde você acredita que o trabalho é mais produtivo? E as respostas foram estas:

A maioria dos que responderam (55,5%) afirmaram já ter tido experiência de trabalho em home office. Lembrando que o perfil dos profissionais que visitam o GestaoIndustrial.com é bastante variado, ocupando, ou não, cargos de gestão.

Surpreendentemente, a grande maioria (61,8%) respondeu que acredita que o trabalho é mais produtivo na empresa. Porém, era preciso entender, separadamente, as respostas dos que tiveram a experiência de trabalho em home office, e as daqueles que ainda não tiveram essa experiência, para entender melhor a opinião de cada um dos grupos, o que fizemos, a seguir.

Ao fazer uma análise cruzada, visualizamos claramente a opinião de cada um dos dois grupos (os que já tiveram a experiência do home office, e os que ainda não). Mas, ainda assim, daqueles que já tiveram a experiência de trabalho em home office, a maioria (54,1%) afirmou que acredita que o trabalho é mais produtivo na empresa.

Outras Informações

Segundo a pesquisa de Gestão de Pessoas na Crise de Covid-19, liderada pela Fundação Instituto de Administração (FIA), realizada entre 14 e 29 de abril de 2020, com 139 empresas brasileiras (de pequeno a grande porte), com predominância dos setores da Indústria (27%) e Comércio e Serviços ( 42%), a experiência com o home office atingiu a expectativa para 44%, ou a superou, para 50%. Mas, paradoxalmente, 70% delas não pretendem manter esta prática após a pandemia, ou a limitarão a até 25% do seu quadro. A pesquisa também mostrou que as empresas menores sofreram mais para adequarem seus colaboradores ao home office; e no total 67% (entre pequenas, médias e grandes) acusaram ter tido dificuldades; e, quanto às dificuldades encontradas, as mais significativas foram: familiaridade com as ferramentas de comunicação e acesso aos sistemas e documentos de trabalho (34%), comportamento dos funcionários ao acessarem ambientes virtuais de comunicação (34%), atuação da área de TI na preparação da infraestrutura, equipamentos e ferramentas (28%). Outra informação interessante é que 47% das empresas deram o aviso aos funcionários, de que mudariam para o regime de trabalho à distância, com apenas 48 horas de antecedência.

Um experimento de home office, publicado há 7 anos, conduzido por Nicholas Bloom, foi realizado em uma agência de viagens chinesa de grande porte. Os funcionários que se ofereceram para home office foram designados, aleatoriamente, para trabalhar em casa, ou no escritório, durante um período de nove meses. O estudo mostrou que o trabalho em casa levou a um aumento de 13% no desempenho. Neste estudo, vale ressaltar, que os profissionais analisados haviam se voluntariado ao experimento, o que pressupõe que havia alguma predisposição para o home office.

Mas, uma outra pesquisa, do Centro de Inovação da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV-EAESP), divulgada em maio de 2020, revelou resultados nem tão estimulantes: 56% dos 464 dos profissionais respondentes encontraram dificuldade com o trabalho remoto; 45,8% apontaram ter havido aumento da carga de trabalho em home office; 34% dos entrevistados consideraram difícil (ou muito difícil) manter a motivação; e 36% apontaram ser difícil (ou muito difícil) manter a mesma produtividade.

Sonho ou Pesadelo?

Foi noticiado no El País (online), que o Facebook espera ampliar bastante o trabalho em home office, nos próximos anos. Zuckerberg, seu fundador e executivo-chefe, acredita que metade dos seus 45.000 funcionários trabalhará remotamente, dentro de uma década.

Um estudo do IPEA, baseado na CDO (classificação de ocupações para pesquisas domiciliares – utilizada na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua), mostrou que 22,7% dos empregos no Brasil (o que representa quase 21 milhões de profissionais) podem ser realizados inteiramente em casa, com variações significativas entre os diferenetes estados brasileiros, e os tipos de atividades ocupacionais. Não é difícil perceber que há uma nítida tendência no aumento do trabalho remoto, ou home office. A questão a se discutir é: quem poderá tirar proveito, quem não; em que situação pode ser aplicado com sucesso, em qual, não. Este mesmo estudo do IPEA aponta que diretores e gerentes (61%), profissionais das ciências e intelectuais (65%), técnicos e profissionais de nível médio (30%), trabalhadores de apoio administrativo (41%) são as ocupações mais passíveis de usufruir do home office.

Por outro lado, além da questão do tipo de profissão passível de trabalho remoto, existe ainda a questão da individualidade de cada profissional, que deve, ainda, ser melhor interpretada. Pois, alguns terão um ambiente mais propício em casa, outros não, considerando fatores como silêncio, vizinhança, infraestrutura, apoio familiar, etc. Há outras vantagens subjetivas a se ponderar, como, por exemplo, o tempo de deslocamento até o local de trabalho, que é bastante variável, e que pode se tornar uma grande vantagem para alguns profissionais (na medida que não precisem passar, por exemplo, horas em transporte até o trabalho), mas que, para os profissionais que moram muito próximos da empresa, não pareça vantajoso ficar em casa.

Portanto, respondendo, finalmente, à pergunta feita: se o home office é sonho ou pesadelo, eu acredito que vai depender de duas questões básicas: primeiro, diz respeito ao profissional em si, pois ele deve ter a infraestrutura básica em casa, ambiente adequado, organização mínima e disciplina (ou autodisciplina); depois, há que trabalhar em uma atividade que seja condizente com o trabalho remoto. E, exatamente, por conta dessas duas questões (relativas ao profissional e ao tipo de trabalho), e das vantagens e desvantagens subjetivas próprias de cada indivíduo, que já comentamos, poderemos ter dois profissionais na mesma função, em que, um tem aumento de produtividade, e o outro, queda. Assim como, poderemos ter profissionais em funções diferentes, em que ambos tem aumento de produtividade, ou, o contrário. A questão a se considerar, portanto, sobre o home office (ou trabalho remoto), é analisar, não apenas o tipo de trabalho executado, mas, também, o profissional envolvido nele; de um lado, adequando o trabalho ao novo ambiente, e, de outro, o próprio profissional a este novo contexto.

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Autor: Rodrigo Vargas – Engenheiro Mecânico (UFPR), pós-graduado em Engenharia de Manutenção Mecânica (UFPR), pós-graduado em Gestão Empresarial (FGV), Tem mais de 30 anos de experiência profissional, sendo mais de 20 dedicados a atividades de gestão e liderança, tendo trabalhado em renomadas empresas multinacionais, com vivência profissional internacional na Europa, Ásia e América Latina. Rodrigo obteve certificação Black Belt na metodologia Seis Sigma, certificação Practitioner em Programação Neurolinguística, certificação de Auditor Líder do Sistema de Gestão da Qualidade ISO 9001, e formação complementar em Docência pela Fundação Getúlio Vargas. Rodrigo Vargas tem vários livros publicados nas áreas de gestão, finanças, e cognição; compartilhando conhecimento sobre gestão, há mais de 10 anos, através do portal GestaoIndustrial.com.


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