A Lei de Parkinson e as Horas Extras

“O trabalho se estende para ocupar o tempo disponível para sua execução.”

A citação acima representa a Lei de Parkinson, concebida por Cyril Northcote Parkinson, um autor e historiador inglês que, em 1955, publicou um artigo na revista The Economist, onde, pela primeira vez, introduziu o esse conceito. Depois, em 1958, publicou o seu livro: Parkinson’s Law – or The Pursuit of Progress. Parkinson desenvolveu o seu conceito, observando, inicialmente, o trabalho e a produtividade no serviço público britânico. Depois, percebeu que esse conceito se aplicaria também a outras áreas, observando que tarefas simples aumentam de complexidade de acordo com o aumento do tempo dado a elas. Da mesma forma, quando o tempo de execução da tarefa encurta, o trabalho tende a ser feito de forma mais objetiva. Pela Lei de Parkinson, quando o tempo para a execução de uma tarefa aumenta, a improdutividade vinculada a essa tarefa também tende a aumentar.

A Lei de Parkinson e as Horas Extras

Imagine a seguinte cena: são aproximadamente sete horas da tarde, e ainda vemos alguns colaboradores trabalhando em algumas áreas da empresa. Os gerentes deixam suas mesas e vão para casa felizes, porque sabem que essas pessoas continuarão trabalhando por mais tempo. Considerando que o horário normal de saída do expediente seria 17h ou 18 h, você vê algo errado na cena anterior? Espero que você tenha dito “sim”!

Esta cena é muito típica em um ambiente industrial, e você vai encontrar todas as razões e explicações possíveis para justificar o porquê há um colaborador fazendo hora extra. Mas, afinal, por que são feitas tantas horas extras na Organização? Por que a maioria dos gerentes gosta tanto disso? E finalmente, por que isso está errado?

Siga meu raciocínio, analisando, primeiro, algumas das várias possíveis razões (provavelmente as principais) para se fazer hora extra, depois, as razões pelas quais a maioria dos gerentes gosta tanto disso, e, finalmente, por que isso está errado.

Razões para se fazer horas extras: pedidos em atraso, projetos com atividades em atraso/ou datas apertadas, problemas de fabricação, trabalhos fora da rotina, relatórios urgentes, análises extraordinárias, trabalhos atrasados em geral,  colaborador que quer apenas parecer comprometido perante o chefe, colaborador que quer engordar o salário no final do mês, e tudo o que (aparentemente) não cabe dentro do horário normal de trabalho.

Razões para a maioria dos gerentes gostar tanto das horas extras na sua área: a razão mais sensata é a que não houve tempo disponível durante o horário normal e, por necessidade, precisou-se da hora extra. Porém, muitos gestores gostam de ver seu pessoal em hora extra, principalmente, porque isso faz parecer que sua equipe é comprometida e dedicada ao trabalho (e isso conta pontos a favor dele, pelo menos, é o que pensa esse tipo de gerente).

Razões pelas quais fazer horas extras é (na maior parte das vezes) errado e improdutivo:  Já vimos que a Lei de Parkinson nos diz que o trabalho tende a se estender de acordo com o tempo para sua execução, portanto, no caso geral, horas extras tendem a ser improdutivas. Ainda que, em muitas situações, trabalhos sejam terminados, relatórios sejam preenchidos, análises sejam feitas, as horas extras colaboraram para o aumento da improdutividade. Claro que, estamos no mundo real, e em algumas situações, não é apenas aceitável fazer horas extras, como é necessário (recuperar a produção para não atrasar uma entrega, por ex.). A questão aqui é, sobretudo, o excesso de horas extras, a repetição rotineira de horas extras, e a falta de ações para evitá-las.

Além da Lei de Parkinson, que nos alerta para a improdutividade advinda da extensão do tempo para a execução de um trabalho, há um interessante estudo (que, na verdade, é uma análise crítica de vários estudos sobre os efeitos das horas extras) do Departamento Americano de Saúde e Serviços Humanos, “Overtime and Extended Work Shifts: Recent Findings on Illnesses, Injuries, and Health Behaviors“, de 2004, que reforça o que já foi dito, mostrando que, em 16 de 22 estudos abordando efeitos gerais na saúde, a hora extra foi associada com um enfraquecimento geral da saúde, e um aumento nas taxas de lesões no trabalho. Além disso, percebeu-se um padrão de piora do desempenho em testes psicofisiológicos relacionado ao trabalho em horas extras, especialmente com turnos de 12 horas combinados com mais de 40 horas de trabalho por semana.

Busque Eficiência

A maioria das razões para as horas extraordinárias poderiam ser evitadas com uma gestão adequada, bons processos, planejamento, e pessoas com as competências certas, além de bom senso, é claro. O fato é que as horas extras devem ser exceção, e não regra. Portanto, a próxima vez que você vir pessoas fazendo hora extra, ou tiver que autorizar algum trabalho em hora extra, reflita um tanto a mais, entenda as razões, e as causas dessas razões. Lembre-se da Lei de Parkinson, que diz que o trabalho se estende para ocupar o tempo disponível para sua execução, portanto, horas extras, em geral, são improdutivas, ou, no caso da área de Manufatura (Produção), podem ser, além de ineficientes, um sério risco de problemas de qualidade e de desgaste dos trabalhadores.


Autor: Rodrigo Vargas – Engenheiro mecânico (UFPR), pós-graduado em engenharia de man. mecânica (UFPR), pós-graduado em gestão empresarial (FGV), com mais de 17 anos de experiência em ambiente industrial, sendo mais de 13 anos ocupando cargos de gestão na indústria automotiva e eletroeletrônica.


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