Desmistificando o Profissional Multitarefa

Existe um mito de que algumas profissionais acreditam que conseguem fazer mais de uma tarefa ao mesmo tempo, e até alguns recrutadores solicitam esse tipo de perfil, na vã esperança de encontrá-lo. Acontece que não existe tal profissional. As pesquisas da neurociência nesse âmbito já provaram que não é possível dar atenção a mais de uma tarefa intelectual ao mesmo tempo. Mas, vamos entender melhor o que isso quer dizer!

Pesquisas da Universidade de Utah

Em 2013, um estudo publicado pelos professores de psicologia David Strayer e  David Sanbonmatsu, da Universidade de Utah, analisou 310 estudantes de graduação de Psicologia, através de uma bateria de testes e questionários para medir a capacidade real de multitarefa, a capacidade percebida de multitarefa, o uso de telefone celular durante a direção, o uso de uma ampla variedade de mídias eletrônicas, e os traços de personalidade (como impulsividade e busca de sensações). As principais conclusões foram:

  • Aqueles que eram os melhores em multitarefa eram os menos propensos a realizar várias tarefas simultaneamente;
  • Quanto mais as pessoas faziam multitarefa, mais elas careciam da capacidade real de realizar multitarefa, e sua capacidade percebida de multitarefa foi significativamente superestimada;
  • Pessoas com traços de personalidade com altos níveis de impulsividade e busca de sensações eram mais propensas a realizar multitarefa;
  • Surpreendentemente, o multitarefa faz isso porque é menos capaz de bloquear as distrações e se concentrar em uma tarefa única, e não porque seja bom nisso.

Os pesquisadores disseram, ainda, que a multitarefa das mídias (exceto o uso do telefone celular na direção) correlacionou-se significativamente com a impulsividade (especialmente a incapacidade de se concentrar e o ato de agir sem pensar), por isso, pessoas impulsivas tendem a ser mais orientadas a recompensas e mais aptas a assumir riscos, podendo ser menos sensíveis às perdas de produtividade associadas à multitarefa. A multitarefa (incluindo o uso de telefone celular na direção) correlacionou-se significativamente, também, com a busca de sensações, indicando que boa parte das pessoas faz multitarefa por ser mais estimulante, interessante ou desafiador, ainda que isso possa prejudicar seu desempenho geral.

Pesquisas da Universidade de Michigan

Em experimentos publicados em 2001 pela APA (American Psychological Association), Jeffrey Evans, David Meyer, e Joshua Rubinstein estudaram jovens adultos alternando entre diferentes tarefas, como resolver problemas de matemática ou classificar objetos geométricos. Para todas as tarefas, os participantes perderam tempo quando tiveram que mudar de uma tarefa para outra. À medida que as tarefas se tornavam mais complexas, os participantes perdiam mais tempo, e eram mais rápidos quando mudavam para tarefas que conheciam melhor. O professor Meyer afirma que mesmo breves interrupções mentais criadas pela troca de tarefas podem custar até 40% do tempo produtivo de alguém.

Pesquisas do Inserm

Jean-Philippe Lachaux, neurocientista do Centro de Pesquisas em Neurociências de Lyon, que faz parte do Inserm-Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale (Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica – em tradução livre) explica que é impossível para o cérebro realizar duas tarefas intelectuais ao mesmo tempo. Ele diz que somente é possível executar duas tarefas ao mesmo tempo, quando uma delas é automática, por exemplo, dirigir um automóvel e ouvir música, ou andar de bicicleta e cantar. Se as duas tarefas exigirem atenção, então, não tem jeito, deverá haver alternância da atenção entre uma e outra, por exemplo, participar de uma reunião e checar as mensagens (quando se verifica as mensagens, não se presta atenção à reunião!) e isso acarreta, além dos prejuízos previsíveis, uma perda significativa de produtividade.

Conclusão

Ser produtivo é, antes de tudo, realizar as tarefas mais importantes (prioritárias) da melhor maneira e no menor tempo possível. É claro que, na vida real, é muito difícil conseguir se concentrar em uma única tarefa, pois, na grande maioria das situações, o profissional deve dar andamento a diferentes tarefas concomitantemente (situação típica do dia-a-dia de um gestor). Mas, isso não quer dizer executá-las exatamente ao mesmo tempo, e sim, fazê-las no tempo disponível, uma de cada vez, alternando-as de acordo com a necessidade. Ter foco e atenção é uma questão-chave. Portanto, a partir de agora, se alguém se apresentar como profissional multitarefa, pergunte qual é o conceito de multitarefa que ele tem!


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Autor: Rodrigo Vargas – Engenheiro Mecânico (UFPR), pós-graduado em Engenharia de Manutenção Mecânica (UFPR), pós-graduado em Gestão Empresarial (FGV), Tem mais de 30 anos de experiência profissional, sendo mais de 20 dedicados a atividades de gestão e liderança, tendo trabalhado em renomadas empresas multinacionais, com vivência profissional internacional na Europa, Ásia e América Latina. Rodrigo obteve certificação Black Belt na metodologia Seis Sigma, certificação Practitioner em Programação Neurolinguística, certificação de Auditor Líder do Sistema de Gestão da Qualidade ISO 9001, e formação complementar em Docência pela Fundação Getúlio Vargas. Rodrigo Vargas tem vários livros publicados nas áreas de gestão, finanças, e cognição; compartilhando conhecimento sobre gestão, há mais de 10 anos, através do portal GestaoIndustrial.com.


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