Por Que o Ótimo É Inimigo do Bom?

O Ótimo É Inimigo do Bom

Que a atitude é um fator crítico do sucesso, ninguém discute. Porém, muita gente não se dá conta de que, querendo acertar, acaba errando. Não é raro as pessoas quererem levar um projeto ao nível 100% para colocá-lo em prática, ou então, esperam o momento 100% adequado para executarem determinada tarefa. O mais das vezes, isso leva a uma frustração! Por quê? Porque, dificilmente, chegaremos ao nível 100%, que dirá no início de qualquer coisa. Ou seja, tentando fazer algo perfeito, você pode impedir que algo seja suficientemente bom. Esperando chegar ao ponto ótimo, as pessoas não atingem o bom. Essa é a essência do provérbio italiano que diz: “o ótimo é inimigo do bom” (Il meglio è l’inimico del bene), que foi difundido pelo filósofo francês Voltaire (le mieux est l’ennemi du bien) tanto no seu Dicionário Filosófico (Dictionnaire Philosophique), publicado em 1770, como em seu poema La Bégueule, publicado pouco tempo depois.

Pode Ser a Diferença Entre o Sucesso e o Fracasso

Gretchen Rubin, autora do best-seller The Happiness Project (Projeto Felicidade), publicado em 2009, estabeleceu a seguinte resolução: “não permita que o perfeito seja o inimigo do bom. Em outras palavras, em vez de se esforçar para chegar a um perfeito impossível e, portanto, não chegando a lugar algum, aceite o bom.”

Quem usou computadores com o sistema operacional Windows nos anos 90 deve lembrar bem das inúmeras mensagens de erro do sistema, e que, não raras vezes, travavam o computador. Bill Gates, um homem de visão, não esperou o Windows estar ótimo para lançá-lo; e isso fez impulsionar a tecnologia da informação de diversas maneiras, mudando sobremaneira o mundo. Com o tempo, é claro, o sistema foi aprimorado; hoje, praticamente, não se veem mais as tais mensagens de erro. Alguém pode imaginar a diferença e o  impacto em nossas vidas, caso Bill Gates tivesse esperado pelo sistema ótimo, ao invés de aceitar o bom?

Recentemente, minha mãe levou seu pet ao hospital veterinário e a médica receitou algumas cápsulas. Minha mãe argumentou que as cápsulas são difíceis de dar e estressa muito o animal, e pediu uma medicação líquida. A médica insistiu dizendo que a absorção é ótima em forma de cápsulas, e as manteve como prescrição. A médica, na sua inocência, querendo atingir o ótimo, sequer alcançou o bom.

Há muitos anos atrás, assistindo a uma palestra do Jaime Lerner (arquiteto e urbanista, que foi 3 vezes prefeito de Curitiba, responsável pela criação da Rua das Flores, canaletas dos ônibus expressos, estações tubo, entre outras coisas), lembro dele ter dito algo assim: “Não espere um projeto estar 100% pronto para colocá-lo em prática, pois, do contrário, você poderá perder o timing ou nunca realizá-lo.” É claro que, pelo fato disso ter ocorrido há mais de 30 anos, pode ser que eu tenho trocado algumas de suas palavras, mas, certamente, não o sentido, que ficou marcado como um precioso ensinamento de um homem empreendedor e realizador.

Quem não assistiu a grandes sucessos de público do cinema, como Titanic, Gladiador, De Volta para o Futuro, Guerra nas Estrelas; pois bem, todos esses filmes tem em comum, além de serem icônicos e terem tido um sucesso enorme, o fato de terem colecionado uma série de erros de produção ou sequência. No caso do Titanic, há um erro relacionado à proa do navio (parte da frente), que, em duas cenas diferentes, aparece com duas estruturas (designs) diferentes. No caso do Gladiador, numa cena em que uma biga tomba, aparece um cilindro de gás que estava escondido embaixo dela. Alguém se deu conta disso ao ver os filmes? Sabendo disso, alguém tira todos os méritos desses filmes? Acredito que não! Se os respectivos diretores dos filmes quisessem chegar à perfeição, talvez não os tivessem terminado nunca.

Eu mesmo, provavelmente, não teria escrito e lançado 9 livros nas áreas de gestão, finanças, e cognição, se tivesse esperado chegar à perfeição; e nem mesmo teria escrito este artigo, agora. Por isso, tenho procurado o razoável, o aceitável, aquilo que seja bom o suficiente. Não que eu imponha limites, pois acredito que, em determinadas situações, podemos até chegar ao extraordinário, mas, sendo prático, busco balizar-me, o mais das vezes, no que seja bom o suficiente. Isso é uma forma de eu driblar o perfeccionismo, que sempre foi uma característica com a qual tive que lidar  em várias situações; pois, acredito eu, o perfeccionismo deve ter evitado várias outras coisas que eu poderia ter realizado, caso tivesse buscado o bom, ao invés do ótimo.

Fazer o Bom Não É Fazer Malfeito

É preciso que fique claro que buscar o bom quer dizer: buscar o bom! Não é negligenciar, não é fazer malfeito. Também não quer dizer que, podendo fazer melhor, você, deliberadamente, escolha fazer pior. Não deixar que o ótimo atrapalhe chegar ao bom é, acima de tudo, usar o bom senso. Afinal, lembremos das palavras de Confúcio (filósofo chinês que morreu no século V antes de Cristo): “É melhor um diamante com defeito, do que uma pedra qualquer sem defeito.”


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Autor: Rodrigo Vargas – Engenheiro Mecânico (UFPR), pós-graduado em Engenharia de Manutenção Mecânica (UFPR), pós-graduado em Gestão Empresarial (FGV), Tem mais de 30 anos de experiência profissional, sendo mais de 20 dedicados a atividades de gestão e liderança, tendo trabalhado em renomadas empresas multinacionais, com vivência profissional internacional na Europa, Ásia e América Latina. Rodrigo obteve certificação Black Belt na metodologia Seis Sigma, certificação Practitioner em Programação Neurolinguística, certificação de Auditor Líder do Sistema de Gestão da Qualidade ISO 9001, e formação complementar em Docência pela Fundação Getúlio Vargas. Rodrigo Vargas tem vários livros publicados nas áreas de gestão, finanças, e cognição; compartilhando conhecimento sobre gestão, há mais de 10 anos, através do portal GestaoIndustrial.com.


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